Mano Brown

Falar de Mano Brown é falar de Racionais, pois eles se misturam como se fosse um só. Confusão normal, porém não é certo reduzir tudo em uma pessoa. Mano Brown faz parte do Racionais junto com Edi Rock, Ice Blue e KL Jay, constituindo o Racionais MC’s, ou seja, um grupo e não um artista individual. O fato é que citar o nome de Mano Brown remete ao grupo e a toda sua obra.

Ao longo da carreira, Mano Brown escreveu canções como “Vida Loka I”, “Vida Loka II”, “Jesus Chorou”, “Diário de um Detento”, “Fórmula Mágica da Paz”, “Homem na Estrada”, “Fim de Semana no Parque”, “Negro Drama” com Edi Rock e tantas outras que são verdadeiros hinos ao retratarem com precisão a vida dura da periferia, vida essa que se repete, atravessando gerações e fronteiras.

Nos primeiros contatos com o Rap a música era vista como um lazer, uma brincadeira mesmo. O jovem Pedro Paulo junto com seu amigo inseparável Paulo Eduardo ouviam o funk de James Brown e seus sucessores, pois o início do rap foi assim. O filho de Dona Ana presenciou um período de transição mesmo, a música era um balanço e a onda começara ali nas ruas e praças de São Paulo no fim dos anos 80, mais precisamente na lendária estação São Bento.

Com a ousadia da juventude e sem planejamento algum, os passos de Pedro Paulo e Paulo Eduardo os fizeram encontrar com Edivaldo e Kleber, dois jovens negros como eles que tocavam em festas da zona norte. A situação se construía assim e, se firmou em uma audição no centro da capital paulista onde nascia o primeiro volume da Coletânea Consciência Black. Álbum que reuniu vários nomes pioneiros do Rap Brasileiro.

Não havia pretensão de profissão foi um encontro que deu certo e sob a batuta de Milton Salles os quatro jovens gravaram “Pânico na Zona Sul” e “Tempos Difíceis” que integrou o primeiro Disco da série “Consciência Black” de 1988. Esse foi o primeiro registro musical, mas ainda não existia o Racionais.

Essa experiência aproximou os jovens e estreitou os laços de amizade e afinidade com a música e com o movimento hip hop. Mano Brown gostou muito da forma como KL Jay tocava, pois desde o começo ele já tirava sons a frente de seu tempo com uma tecnologia limitada, pois estamos falando dos anos 80 para os 90. Ao mesmo tempo que KL Jay admirou de primeira as rimas e o jeito autêntico de Mano Brown cantar. De lá para cá o discurso e o conhecimento dos caras se expandiu e amadureceu fazendo com que o Racionais se tornassem o patrimônio que são para a cultura brasileira.

Com o grupo Mano Brown gravou 6 discos sendo que o último em 2002 foi lançado em DVD. Para o rapper o ano de 2002 foi inesquecível pelas muitas lembranças boas, o campeonato do Santos e a vitória de Lula nas eleições presidenciais. Relembrar toda a discografia recheada de clássicos é olhar um legado sem tamanho, pois todas essas músicas são simbólicas para a sua carreira e para a música brasileira também.

Suas composições tratam de assuntos polêmicos, repercutindo o cenário da periferia das grandes cidades, sempre carentes de assistência social por parte dos governantes e da sociedade com um todo. Os temas são sempre atuais e pertinentes mostrando que o tempo passa, mas a realidade continua cruel. Não é a toa que o rapper sempre é colocado em listas como uma das mais importantes vozes da música brasileira, isso sem falar das teses acadêmicas que falam da sua personalidade.

O reconhecimento conquistado por Mano Brown veio pela sua atitude. Mas ainda há muito o que conquistar, pois nem tudo são flores, há pedras no caminho e ainda existe muita discriminação dentro da música em relação ao Rap e não é só Mano Brown que diz, o mercado sentencia que o espaço ainda é limitado. Falta união no intuito de se pensar no coletivo e não no umbigo, mas isso não é exclusividade do RAP, pode ser visto como algo cultural no país que reclama e não vai à luta.

Além da música Mano Brown trabalha incentivando projetos sociais no seu bairro, onde nasceu e mora até hoje, localizado na região do Capão Redondo (zona sul de São Paulo), visando assim conscientizar e formar profissionalmente os jovens da periferia, para que não passem o que ele passou.

Em breve Mano Brown também irá lançar um trabalho solo, diferente do rap, com influências do soul e funk americano dos anos 80, como são seus shows individuais ao lado do músico Lino Krizz. O álbum está sendo finalizado e o lançamento é previsto para este ano.